sábado, 19 de maio de 2018

Espaços, paixão e transformações



Há alguns espaços não ditos. E são tantos e de tantos! O do Sol, sem a presença da Lua. O das demais estrelas, com aquele vazio presente entre tantas e tantas galáxias. Não é uma questão de estar próximo. Não é físico. Não é explicativo. Algumas transformações não podem ser imediatas: precisam de bilhões de anos. Transcendem, e acendem naquela poeira que vagava no espaço vazio uma luz que vai, em duas ou três gerações de sois, finalmente, fundir materiais mais pesados que a nossa mera vontade, materiais como a paixão e o amor. Nem toda luz que se forma produzirá paixão e amor. Ela não pode ser nem muito grande e nem muito pequena, tem que ter um tamanho exato. E essa é a ironia da harmonia de toda a natureza. Algumas pessoas possuem uma grandeza ou uma pequeneza tão extremas que jamais fundirão sua essência em sentimentos. Permanecerão astros chamativos, sem vida ao seu entorno. Que triste para estes. Na pressa do Moço Santiago eu percebia apenas que a paixão marcava a pele. Nas tristezas deste Velho, finalmente percebo que tais marcas é que forjam o amor.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Um universo dentro de mim, um vazio ao seu lado


"Não seria muito um universo se não fosse o lar das pessoas que você ama". A foto é do Moço Santiago, já a frase é atribuída a Stephen Hawking, que semana passada passou a ser mais uma estrelinha no céu. Ele brinca com a ironia de que o universo, apesar de incomensurável, não tem sentido sem as pessoas realmente importantes em nossas vidas. Acontece que, às vezes, sinto este universo tão pequeno e vazio (pois se faz agora mais uma vez). Vazio pq apesar de tantos esforços para dar significado parece não haver forças (que eu espero) para preenchê-lo com aquilo que Hawking chamou de amor. Algumas formas de amar trazem frio e dureza. O limite externo parece claro, enquanto o interno não. A água, necessária em nossas vidas, mata em contato com o corpo externo se demasiadamente fria. Qual o limite da tolerância? Quando é hora de ir embora (e como, astronauta?) deste universo que se faz vazio? Nesse universo dentro de mim, cada vez mais se revela um vazio ao seu lado. O mundo tem menos espaço sem você aqui, Stephen. 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Prazer em conhecê-lo



Há uma estranha aproximação em todos os finais de ano. Dois entes que se aproximam, se tocam, se beijam, e não se veem mais. Aquele que se aproxima é sempre um desconhecido. Traz, às vezes, expectativas sobre ele - boas e ruins - mas sempre é desconhecido. E acostumamos a nos entregar a ele de forma calourosa, vibrante. Àquele que se afasta, agradecemos e mantemos ele presente em nossas fotografias e memória. Duas presenças assustadoras pra mim. Não tenho de nenhum concretude, mas sempre sonhos, esperanças ou memórias e fotografias. Ambos coexistem, mas não se tocam. Há um momento no qual eles se olham, se aproximam, tenho certeza que se tocam e, da mesma forma fugaz, se afastam, ainda se olhando, com o que sobrou de molhado do beijo que trocaram por formalidade. As luzes acesas, o barulho de rojão, o álcool no sangue das pessoas, o olhar curioso da criança, a comida pesada no estômago e a presença de pessoas queridas ao nosso entorno. Esses dois caras observam tudo isso. Ambos podem nos trazer novas presenças cada qual da sua maneira: ou pela memória do ente passado de pessoas queridas que amamos e que se foram, ou pela força do ciclo que renova nossa humanidade. Ambos trazem dor e alegria, ambas emoções se misturam e formam aquilo que de mais essencial e exclusivo há em todo o universo: a vida humana. Prazer em conhecê-lo, ano novo. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Ar, comida e água


Em meio a tantas e tantas inquietações é fato que acabo ocupando meus pensamentos naquilo que, momentaneamente, me parece desesperador. Qual a função da ponte se não houver dois lados para se cruzar? Qual minha importância em sua vida se você não precisa de um abraço apertado meu... De tudo que tenho querido, ser seu fundamento vem em primeiro lugar. Sabe, aquela rocha que segura o barrando? Aquela nuvem que derrama água ou aquele amendoim que vira pé de moleque? É meu desejo. Mais! Coisas simples e clichês: a tampa de sua panela! Quanta poesia existe no ditado popular! Mais necessário do que estruturar e alicerçar minha vida é abrir um sorriso de bom dia pra você. Não pq eu queira ser substancial elemento, mas pq necessito me fazer útil. O amor tem dessas utilidades, não vê? De se ar, comida e água para o relacionamento à dois.

sábado, 20 de maio de 2017

Notas imperfeitas sobre ela


Nesses últimos anos todos tenho escutado sobre as minhas faltas de atenção. Como se eu não as conhecessem melhor do que ninguém. Toda elas, absolutamente cada uma delas, contam minha história: quem eu sou, como levo a vida, as coisa que tolero e as coisas que me toleram. Nessas conversas unidirecionais e quase dissociativas tento me esconder em vão, afinal, eu sou meus defeitos, assim como também sou meus acertos. O engraçado é que também tenho notas imperfeitas sobre ela. O fato de nunca as dizer não significa que não me incomodem de alguma forma. Significa que tenho serenidade para não trazer essas notas e deixá-las sobre a mesa de café da manhã ou do jantar ou começar nosso domingo com elas tomando um espaço que prefiro preencher como carinho e afeto. Por exemplo: no começo eu até achava engraçado todos aqueles copos sobre a pia, usados para o mesmo fim: tomar água. Cada copo um pouco de água. E assim todos os copos eram usados e deixados sobre a pia. E eu sempre os lavei, sem qualquer raciocínio pessimista sobre isso. Coisa pequena que, com o tempo, foi-se reduzindo até que não vejo mais tantos copos usados com o mesmo propósito. O tempo deu conta de ajustar os copos, pq eu me preocuparia? Outra nota da imperfeição sobre ela é o chuveirinho do banheiro sempre fora do suporte (que é a própria torneira) e aberto. E isso não me incomoda: a cada banho eu o fecho e o guardo, como quem ganha tempo para gastar com amor e não com reclamação. Também é comum se fazer a limpeza perfeita do quarto e deixar, sobre o notebook e a mesa de trabalho, antes arrumados, todos os fios e cabos que estavam antes no chão. Termina-se a limpeza, mas nem tudo volta ao seu lugar. O arrumado sujo deixa seu lugar para o desarrumado limpo: os fios permanecem ali por algum motivo também imperfeito que, com nem 2 minutos de leve esforço, tudo volta à normalidade sempre imperfeita de antes. A cama sempre desarrumada também me alerta: ali faltou atenção. Mas qual o prejuízo? Três, cinco minutos esticando ali e dobrando duas cobertas leves? Em um esmero olhar cabe o infinito se há amor. Comparado a isso, o prejuízo por expor tais notas imperfeitas em minutos de discussão ao invés de um olhar de ternura custariam várias eternidades de olhares. Seria muito prejuízo. O que dizer então da gaveta de roupa que, quase sempre mal fechada me impede de abrir a minha? E o espelho do carro que sempre é deixado pra baixo ou então, sempre que paramos, suas coisas são deixadas sobre o meu banco e não sobre o próprio banco dela? Coisas tão pequenas que sem minha ignorância explícita e proposital poderiam se tornar mal entendidos e discussões fúteis que levaria qualquer gostar que sobrasse para longe da nossa convivência. Há mais notas imperfeitas sobre elas, mas que ficarão para a próxima canção que estou compondo.  

terça-feira, 16 de maio de 2017

Te pegarei no colo


A Lua é minha bolinha de gude. Também é minha bola de capotão, minha bexiga voadora amarrada num graveto. De todas as brincadeiras ela é a mais gostosa: acaba só quando começa o dia. Criança ao contrário que sempre fui, me despeço do sono para ficar ali, olhando para ela. Já o Sol ilumina tudo, mas é tanto brilho que não se pode olhar em seus olhos ou brincar escondido no seu barulho diurno. Já a Lua revela baixinho todos os seus segredos e nos faz construir os nossos próprios para guardar em seu silêncio noturno. Enquanto ela é cúmplice, o Sol é dedo-duro, não deixa a gente esconder nossas brincadeiras por mera travessura. E ele brincará só por isso. Te pegarei no colo um dia, Lua linda.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Noite angular


Há todo um espaço vazio esperando ser preenchido. Ele é azul. Às vezes branco. Às vezes preto. Avistado de um bom lugar, olhado de lado a lado, ele é interminável. Cabem todos os pensamentos, seja os já feitos, seja os deste instante, seja do tempo a seguir. Mas tão efêmeros que, de repente, crepúsculo! A maioria dos pássaros se cala enquanto outros começam seus cantos. Na escuridão, eles são dissimulados, tristes, inconstantes. O céu escuro se abre em uma noite grande angular. Algum homem menino criou brinquedos pra ver a viajante luz que chega daquele espaço vazio. O céu não é mais azul. Nem negro. Agora tem brilho, cores escondidas. Aparecem magenta, cian, laranja no horizonte. Às vezes algumas cores ateiam fogo no céu e na nossa imaginação. São mais que meteoritos. São sentimentos navegando por lá, naquele mais que um Google vazio. Há um espaço todo preenchido por pequenas esferas de cristais além céu. Vai se alegrando conforme a hora avança. A minoria dos pássaros então se cala enquanto outros tantos começam seus cantos. Já na penumbra do amanhecer, sussurramos todos os nossos pensamentos antes de ir pra casa. O céu se abre em um dia objetivo enquanto, enfim, a noite dorme, angular na espinha dorsal do universo.

domingo, 3 de abril de 2016

Sem controle


A gente fala de controle, de escolhas, mas sinto eles todos tão desobedientes! Não era isso que eu queria, nem me imaginei nessa situação. Quanta falta de respeito, repetidas vezes. Ser perfeito não sei se existe, mas ser desrespeitado por toda e qualquer falta de qualquer perfeição é um fuzilamento moral horrível, incontornável visto daqui. Claro que assim todo mundo será atravessado todos os dias por essa intolerância. O que gosto de você? Reforço. O que não gosto? Tolero, no máximo converso e buscamos correção, um equilíbrio. Revidar não é claro que destrói-se ambos os tecidos? E tenho tentando não combater fogo com fogo, mas o amor não vence a dureza desse aço não. E se a vitória vem no final, depois de mta persistência e maturidade, de que adianta? A vida não é a passagem e chegar ao fim para ser feliz é o mesmo que sentir o sabor do chocolate sem ter colocado ele na boca. Sei se quero não...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Das chuvas {eternas ou não}


Acontece que eu queria estar ali, me molhando na chuva. Mas, ao invés disso, estou aqui com medo dessas nuvens pesadas que vem em estações que equivalem a uma vida toda. Decidi que esse ano muda... há um fundo de vontade na mudança, mas há uma enorme resistência do coração na persistência do cotidiano. Não é medo, nem insegurança, é amor mesmo. Estou aqui por opção. O que sinto, o que tenho vontade, o respeito que ainda guardo... tudo tão cada vez mais escondido aqui dentro. Do lado de fora não percebo reciprocidade. Não que não exista, mas por não ser demonstrada me empurra mais distante e me faz sofrer. "Já conversou?" - máxima que escuto nas poucas vezes que sem querer deixo sair da boca algum murmúrio lamentuoso. É claro que já. E já de novo. E de novo. E de novo... e nesse looping eterno das conversas que tento estabelecer fico é tonto com tanta repetição de assunto. Amor é cada vez mais dizer bom dia, obrigado, e se importar com o outro. É tudo que fica, não? O resto o tempo leva e consome.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Teimosia


É que acontece isso todo dia, de o Sol sair. Às vezes a gente dorme como se não fosse existir amanhã, com a certeza do próximo dia não acontecer. Em tempos assim se deseja que o dia vivido fosse apagado, mas seria o mesmo que desejar que o Sol não nascesse. Então a gente tenta aprender com eles: tanto com o dia vivido quanto com a teimosia do Sol. Chega verão todo mundo reclama do calor. Chega o frio e o culpado é ele novamente, por estar desta vez muito distante. E nessa ida e vinda a gente nem nota o tempo passando. Às vezes a gente vive e não percebe, encontra-se no fim. Em tempos assim se deseja ter mais um dia para se viver.

domingo, 12 de abril de 2015

Minhas janelas pueris


Tenho tido saudades que mantenho guardadas a 7 chaves: comer aquele bolo quentinho na casa da amiga, sentar na calçada com um velho violão desafinado, tocar aquela campainha velha sem ter a certeza dela ter sido escutada, sonhar - e apenas ter que fazer isto - com o que se vai fazer no futuro, atender a porta ouvindo alguém te gritar pelo nome. São minhas janelas da infância e adolescência abertas para o infinito.

Tempo passado, congelado - dizem - como em uma fotografia. A verdade é que foi eternizado e como tal já não sai mais daqui de dentro. Pra sempre me leva, por mais que seja eu quem o carregue. E minhas escolhas? Antes elas eram seletivas e me davam uma direção; hoje são lembranças que me tomam subitamente e que me mostram as decisões que tomei. São um trago pra uma mente que quer viver tantas vivas quanto possíveis e que nelas enxergam todo um outro universo não vivido. Dá saudade tudo isso.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Neste último mês


Uma música não me sai da cabeça. Posso dizer que ela conta essa imagem: árvore velha, caída, derrubada por um vento forte ou um raio em um dia escuro. Esses dias fui até lá, sem saber da sua existência, e a fotografei. Pude notar suas marcas abaixo da casca, já ressecada, caída. Aquele galho estava nu. Dizer que mostrava sensualidade por não vestir suas roupas não seria adequado. Mas era como um espelho revisitado 33 anos depois. Olhar para troncos assim tem me mostrado coisas passadas e amadurecidas sem necessariamente me inspirar confiança ou segurança. Não sei se é coisa de signo ou ascendente, mas nasci para ver. Contar sobre isso foi acaso. Mostrar tem sido escolha. E embora eu possa falar e falar e falar quando com sono, tenho sido desmedidamente seletivo para apontar e escolher em quanto tempo lhe mostrar alguma coisa. Este último mês foi como um piscar de olhos.